Sunday, August 18, 2013

Lendas do Laerte Pintor IV
     Reza a Lenda que, na década de 1970, aconteceu a crise mundial do petróleo. A ordem do General Emílio Garrastazu Médici era economizar combustível. Os postos de gasolina não podiam vender o produto nos finais de semana e era proibido transportar gasolina em galões. 
     Nessa época o Lerte, trabalhava duro em sua oficina de reforma de automóveis e ela estava lotada.   Num sábado à noite, alguns jogavam truco e eu refogava uma galinha na panela de ferro preta. A comida ficou pronta lá pelas 4:00h da madrugada e  às 5:30h da manhã do domingo já tinha acabado e todos iam embora.  Na saída o Laerte se lembrou de que tinha prometido entregar pronta na segunda-feira a viatura da Polícia Militar que estava lá para reformar a lataria e a pintura. 
     De lá de casa ele já foi para a oficina que ficava na Rua Daniel Xavier, esquina com a Padre Lafaiete. Meio dormindo, abriu as portas da oficina e deu início aos trabalhos de funileiro na velha Rádio Patrulha, uma Chevrolet Veraneio.  Martelou, passou massa, lixou e deixou tudo no jeito de pintar. Lá pelo meio dia a fome chegou.
     Fechou as portas da oficina, entrou em seu carro e deu partida. Nada. Olhou no tanque: vazio. A única solução era pegar uns litros de gasolina emprestados para ir almoçar e voltar para terminar a pintura. Reabriu as portas, pegou uma mangueirinha e um galão, foi até a viatura policial, abriu o tanque, introduziu a mangueirinha e fez sucção deixando escorrer a gasolina para dentro do galão que estava no chão.
     Quando já tinha uns três litros no galão, ouviu passos atrás dele. Nem olhou, simplesmente levantou o galão bem acima de sua cabeça, ainda com a mangueira dentro do tanque e a gasolina correndo de volta e disse ao policial que acabava de chegar: “Acabei de consertar o tanque que estava furado. Não tinha gasolina nem pra manobrar, mas já tô pondo um pouquinho.”
     Reza a Lenda que ainda posso ouvir o tilintar das ferraduras dos cavalos contra o calçamento de paralelepípedos da Olegário Maciel. Lembro-me já estar deitado na cama quentinha, já bem tarde da noite, às vezes uma chuvinha fina e duradoura e aquele barulhinho distante que vinha chegando, numa cadência crescente, passava diante de minha casa e continuava em direção à Rua Marciano Santos. 
     Eram as charretes, pequenas carroças com uma cobertura de lona e rodas com pneus, puxadas a cavalo. Tinham, além da capota, uma grande lona para cobrir as pernas dos passageiros em dias de chuva. Na parte traseira tinha uma grade para comportar as malas. Essas charretes sempre se dirigiam de madrugada para a estação ferroviária Goiás.
     Muitas vezes minha mãe, meus dois irmãos e eu fazíamos esse trajeto de charrete. Meu pai combinava na véspera com o charreteiro informando o horário e o percurso. Era uma verdadeira festa mágica para nós crianças.  O cavalo com os tapa-olhos, os arreios, largas tiras de couro branco atavam o cabeçalho da charrete ao peitoral e à cilha, de onde saíam duas correntes que se prendiam à madeira, que era para dar a tração e uma correia larga passando pelas patas traseiras para frear.   Tinha um dispositivo para pisar e subir. 
     Todos a bordo, o charreteiro não chicoteava o cavalo, só batia o cabo do chicote em um suporte, o animal entendia e lá íamos nós, num chacoalhante trote, virando à esquerda na A Nordestina, indo pela Marciano Santos,  passando em frente a Estação Ferroviária Mogiana, um prediozinho modesto, porém bonito,  depois o quiosque do Tojiko e logo estávamos lá, diante dela, a magnífica
Estação Ferroviária Goiás.


Construção solene, imponente e elegante. Como uma grande catedral que torna pequenos aqueles que adentram suas instalações, aquela estação sempre fascinou os araguarinos e quem quer que por ali passasse. Quando foi desativada, caiu um tempo em esquecimento, mas graças a Deus, as autoridades locais deram a ela o destino nobre e honrado que ela sempre mereceu.
Lendas do Laerte V
Reza a Lenda que lá pelos idos de 1968, o Laerte estava solteiro e morando no segundo andar de um prediozinho em frente à Estação da Goiás. Muito trabalhador, ele seguia sua rotina com dedicação.  Ia a um barzinho depois do trabalho, tomava umas geladas, ia para casa às 23:00h, subia as escadas, abria a porta, sentava-se na  cama, tirava a botina do pé esquerdo, “plafe”, jogava no chão, tirava a do pé direito e “plafe” jogava no chão, tomava um banho, deitava cansado  e dormia o sono dos justos.   Numa sexta-feira, a vizinha jeitosa que morava no apartamento abaixo do dele, chamou-o e disse-lhe educadamente que ela estava sendo acordada todas as noites nos últimos três meses pelo som de sapatos batendo no assoalho dele o qual era o teto do quarto dela e que até faziam tremer a lâmpada, disse que já estava cansada de ouvir um barulho, depois o outro e lhe perguntou se ele poderia mudar seu comportamento e parar com aquele “plafe!” daí um pouquinho “plafe!” toda noite.  Envergonhado, ele se desculpou e jurou que nunca mais faria aquilo.  No sábado, o Laerte bebeu cerveja, caipirinha e tocou esse violão "Di Giorgio" aí da foto e cantou,  jogamos truco até as 3:00h, comemos galinhada e às 4:00h lá foi ele para o apartamentozinho.  Estava bem “de fogo”. Subiu as escadas e na rotina de costume: Sentou-se na cama, tirou uma botina, jogou no chão com força “plafe”, tirou a outra e...  ooopa!  lembrou da promessa feita à vizinha.  Parou com a mão no ar, segurando a botina e silenciosamente colocou-a suavemente no chão.  Satisfeito por ter cumprido a palavra, ou metade dela, descansou a cabeça no travesseiro. Quinze minutos depois, acordou com alguém esmurrando a porta. Foi ver e era a vizinha. Descabelada, de olhos vermelhos, tão arregalados e cheios de ódio que ela mal conseguia falar, mas ele ainda conseguiu ouvir ela dizer: “Será que o senhor pode jogar logo a droga do outro pé de sapato. Eu preciso dormir!!!!”
Lendas do Laerte VII
Reza a lenda que
Em janeiro de 1980, num sábado, um vizinho que encontrou uma vaca de nossa propriedade atolada em uma grota na divisa de sua fazenda telefonou para o meu pai em Araguari informando e resolvemos ir lá.    O Laerte sugeriu e transferimos o truco para lá. Fomos em dois carros, na Belina  meu pai, meu irmão, meu tio Rui e eu. Outros três no velho Dodge Dart do Laerte.     A mulher do peão começou a fazer a galinhada.  A mesa de truco já estava armada e a cervejas na geladeira esperando.  A ideia era tirar a vaca e trazê-la para o curral, reidratá-la e começar a jogar.  Já eram umas 17:30h e descemos lá para a grota. Uns 8 homens.  A rês estava afundada na lama até o pescoço. Dois entraram para cavar em volta, colocar o laço e os outros fazendo força puxando para fora do atoleiro. Depois de uma meia hora, todo mundo sujo, conseguimos tirá-la de lá.  Meu pai, se afastou, ficando a uns 30 metros, pois sabia que ela ia investir quando estivesse livre. Os outros em volta fazendo força para ela levantar. De repente ela se levantou e partiu com tudo, no rumo do meu pai.  Atrás dele tinha uma grota profunda. A vaca chegou até ele e com uma cabeçada o atirou dentro da grota.  Ao cair ele quebrou a perna esquerda com fratura exposta.   Meu irmão correu em casa trouxe um coxão de molas e desceram a grota para resgatar o Sr. Joaquim Chaves. Colocaram-no sobre o coxão e subiram de volta. Quando descansaram o coxão no chão, ele foi posto sobre uma caixa de marimbondos.  Foi um alvoroço. Era gente dando tapas nas orelhas, na nuca, nos braços, correndo para os lados e deixaram meu pai lá. Ele não foi picado nenhuma vez. Os mais corajosos voltaram lá e o resgataram. Andaram até a cerca de arame farpado e colocaram o coxão no chão. Sobre outra caixa de marimbondos. Aí sobrou pra todo mundo. A cabeça do Laerte parecia uma moranga de tão inchada.  Buscaram alicates, cortaram o arame e colocamos meu pai no carro e voltamos para a cidade. No hospital, o médico presente examinou, ponderou e disse que pela idade avançada e a gravidade da fratura não tinha solução. Teria que amputar a perna. Foi um clima dos piores. Tudo mundo de cara inchada, parecendo japonês e ainda aquela notícia. Buscamos a ajuda do Dr.Luiz Cláudio Sardela.  Ao examinar, ele disse: “deixa comigo que eu resolvo essa questão.”  Levou meu pai para a sala de cirurgia e praticamente montou o quebra-cabeças com ossos estilhaçados, parafusando-os a uma barra de platina com numerosos parafusos. Devemos a ele a dedicação e o empenho com que tratou de meu pai, que depois de uns seis meses voltou a andar normalmente.  Dr. Luiz Cláudio Sardela, pessoa competentíssima e valorosa.  Quem mais tomou ferroadas dos marimbondos foi o Laerte. No dia seguinte ele foi ao hospital visitar meu pai e disse: “Quase que não entro em casa ontem. Minha mulher não me reconheceu.”
LENDAS DO LAERTE VIII
Reza a Lenda que estávamos nos últimos dias de férias do Estadual em 27 de julho de 1968, num sábado  com um vento frio cortante em Araguari.  Fogão de lenha aceso, uns em volta da mesa de truco outros buscando o calor do fogo.  O jogo tinha começado cedo e precisava acabar cedo, pois todos nós íamos ao Bar Capri, em frente à praça Getúlio Vargas assistir a eliminatória do Festival Estudantil de Música Popular. A finalíssima era entre o Laerte e o Gomera. Valia taça e prêmio em dinheiro.   O Laerte tinha brigado com a namorada e estava sorumbático.  Comemos a galinhada e fomos apoiá-lo com nossos aplausos. Uma turma de uns dez, descendo pela Marciano santos até a praça naquele frio antártico. Todo mundo encapotado,  o bar todo enfeitado e apinhado de gente. O Nocera já estava a postos com seu conjunto.  Anunciaram o Gomera e ele deu um show com “Love is all”, memorável.  Quando o Laerte, de roupa nova, ia para o palco, encontrou a namorada emburrada e para reconquistá-la disse-lhe que iria cantar uma música especialmente para ela.  Anunciaram a música “Ronda” que eles tinham ensaiado.  O Laerte disse: “Não.  Eu quero cantar é ‘Eu sei que vou te amar’ do Vinícius de Morais”. O apresentador coçou a cabeça, olhou para o Nocera e perguntou se podia trocar de música e ele concordou. O Laerte soltou a voz, cantou como um sabiá apaixonado.  Tinha gente que chorava.  O povo aplaudiu de pé. Na votação do júri deu empate. Nos aplausos também deu empate. Resolveram dividir o prêmio. Metade do dinheiro e uma taça para cada um. O Laerte comemorando, levantava a taça e mostrava ao público que aplaudia e ria muito ao mesmo tempo. Então ele acenava mais ainda e fazia pose para as fotos e mais o pessoal dava risada. A namorada agora sorridente, toda emocionada, exibindo a taça.  O dinheiro bebemos em cervejas, depois  fomos embora. No próximo sábado, o Laerte cabisbaixo chegou lá em casa um envelope com as fotos reveladas e disse: ”Agora vi porque todo mundo estava rindo.”  As fotos muito nítidas o apresentavam com a taça na mão, camisa preta, calça preta e a braguilha aberta com a cueca samba-canção branca dando tchauzinho para fora da calça.
LENDAS DO LAERTE IX

Reza a lenda que mesmo depois de tantos anos, nos anos 80, nossos usos e costumes continuavam com a pontualidade de sempre: truco, galinhada, cerveja gelada e caipirinha. Era minha vez na cozinha. Aquele sábado foi o recorde de azar do Laerte. O sanhaço dele, idêntico a esse aí da foto, que cantava maravilhosamente e se chamava Violino, morreu. Ele e o parceiro dele perderam todas as quedas que jogaram das 19:00h até às 4:00h da madrugada do domingo e por isso desafiaram para revanche no domingo à noite. Perderam de novo. Aborrecido, o Laerte reforçou na caipirinha e saiu lá de casa bem temperado, mais precisamente “cercando frango no corredor”. Acordou numa ressaca bíblica. Foi trabalhar assim mesmo. E nesse estado de espírito ele recebeu em sua oficina um antigo amigo às 09:00h da manhã daquela segunda-feira, que pedia que ele fosse testemunha em uma audiência no fórum de Araguari às 14:00h daquele dia. Era um velho amigo, cujo filho já havia causado ao Laerte transtornos e muita raiva. Os nomes serão omitidos a título de preservação, mas o fato é verídico e de domínio público. Por considerar muito o amigo, o Laerte aceitou o pedido. Ele nem sabia do que se tratava e o amigo nada lhe disse. Trabalhou até 12:30h, já estava atrasado, atravessou a rua e foi lá pra casa. Pediu para tomar banho, almoçou, vestiu sua célebre camisa preta e o meu irmão, Herlon, o levou ao fórum. Chegaram em cima da hora. A Juíza, circunspecta, solene e carrancuda, ajeitou os óculos na ponta do nariz e perguntou ao Laerte:
-“O senhor conhece o acusado Álvaro?” o Laerte olhando para seu amigo disse:
-“Claro que sim, minha senhora, é uma pessoa muito boa, trabalhador, dedicado, paga em dia e é um bom pai de família. Conheço ele há mais de 30 anos e posso dizer que é uma ótima pessoa. Tudo que sei dele são coisas boas. Pode confiar.” A Juíza muito séria olhou no fundo dos olhos do Laerte e disse:
- ”Senhor Laerte, ele nem é casado e tem menos de 30 anos. O senhor sabe que pode sair daqui algemado e preso por falso testemunho?”
- “Aúúúú! A senhora está falando de quem? Desse meu amigo aqui, o Álvaro?” Perguntou o Laerte, admirado e surpreso, indicando o velho amigo dele que já balançava a cabeça desesperado.
A meritíssima cerrando os dentes esbravejou: -“O senhor se dirija a mim com respeito!!! Eu estou falando do réu que está sentado a sua direita e que tem o mesmo nome do pai dele.”
-“Ahhhhh, bom! agora a senhora me deixou mais tranquilo. Tô fora!” disse o Laerte tremendo e aliviado, completou: “Desse aí não sei é nada de bom”.


Tuesday, September 11, 2012

I LIVED TO SEE IT!

 
   I never really thought I would live enough to see my city Araguari at Google' Street View! It is there and it is beautiful. From where I am here in Brasilia I was able to drive through those streets, stopped in front of my parents' house and I could walk across Manoel Bonito Square and have a sit to watch people passing like it was 40 years ago.

  
   The photography is so clear and intense, so many megapixels resolution. Seventy Other cities like Macaé and Campos dos Goitacazes were also chosen to be shown in Google's fantastic tool.
   When Google Earth first presented that zone, Araguari was one of the first places to be shown in high resolution and I was living at that time in Macaé RJ and I was proud to show my father's farm to my mates of Banco do Brasil.
 
 
    Congratulations Araguari for your 124th anniversary and thank you Google for the present you gave to my city.